Amazônia e soberania – Parte III

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Há, também, precedentes de perdas efetivas de território, em face de pressões e cobiça internacionais. Deixo dois exemplos tão alígeros quanto eloqüentes para permaneçamos alertas.

A Califórnia, como todos sabem, pertencia ao México e era uma região riquíssima em ouro. Com o apoio dos americanos, declarou sua independência para ser, logo depois, anexada aos EUA. Houve guerra, mas não teve jeito, o México capitulou e acabou cedendo, por meio do Tratado Guadalupe Hidalgo, quase 50% de seu território; os EUA aumentaram em 25% o seu e, para dar uma disfarçada, pagaram 15 milhões de dólares a título de compensação aos mexicanos.

A Província do Panamá pertencia à Colômbia. Os EUA queriam construir o canal para ligar o Atlântico ao Pacífico. A Colômbia se opunha. A questão, como informa o professor Nelson Fernandes Maciel, foi colocada como de “interesse internacional” e que não podia ser decidida apenas pela Colômbia. Coincidentemente, grupos internos se rebelaram e criaram a República do Panamá. O canal foi construído.

Ora, a Amazônia é muito mais valiosa do que era a Califórnia e, e hoje, com suas fantásticas reservas naturais, muito mais valiosa do que o Panamá. Há, de fato, na nossa região, o maior banco genético da humanidade. No espaço equivalente a um palmo de nossas florestas, há estudos neste sentido, é possível encontrar cerca de 1500 espécies vegetais e animais, computando-se fungos e microfungos.

No rio Amazonas há aproximadamente 2000 espécies de peixes, mais do que em todo o Atlântico Sul e, em certos casos, numa única árvore, podem ser encontradas 43 tipos de formigas. Sem falar que 25% das essências medicinais foram extraídas de florestas semelhantes.

Só no Amazonas é possível encontrar ouro, em Maués; potássio, em Nova Olinda do Norte; calcário e alumínio, em Nhamundá; estanho, em Presidente Figueiredo; nióbio, em São Gabriel da Cachoeira; linhito, em Benjamin Constant; gás em Tefé; petróleo e gás em Coari, sem falar na abundância de água potável, que será o petróleo dos próximos anos.

Imaginem o que os países que manifestam “preocupação com a Amazônia” não podem fazer para, dela, apossar-se? Precisamos estar vigilantes. Governos estrangeiros poderosos não fazem bondades. Por tudo e para tudo há interesses estratégicos, para a obtenção dos quais, muitas das vezes, não importam os meios.

Em elucidativo artigo, o prof. Paulo Henrique Faria Nunes, diz que os movimentos que defendem a internacionalização da Amazônia alicerçam seus argumentos em, basicamente, três justificativas: de naturezas geopolítica, ambientalista e técnico-científico-informacional.

Sob a ótica geopolítica, a região é cobiçada porque pode abrigar excedentes populacionais de outros países, porque se poderia tornar gigantesca zona produtora de alimentos e, também, porque dispõe de reservas naturais estratégicas. Sob o prisma ambientalista, as razões seriam ecológicas (equilíbrio meteorológico global) e humanitárias (a suposta inaptidão dos estados amazônicos para implementarem políticas socioambientais eficientes). E sob o ponto de vista técnico-científico-informacional, aqui o mestre desce a minúcias, explicando que isso se daria por vias indiretas, como por meio de investimentos estrangeiros, flexibilização das normas sobre patentes, acesso a recursos naturais, requisição de terras, abertura de setores estratégicos a companhias estrangeiras, subsídio de centros de pesquisas, aliciamento de pesquisadores e detentores de conhecimentos tradicionais, como caboclos, sertanistas, indígenas. Ele não está errado.

(continua)

Júlio Antônio Lopes

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