Amazônia e soberania- Parte II

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A bem da verdade, já tivemos, na região amazônica, uma grande guerra. Na época da colonização por aqui se debateram pelas nossas riquezas Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Holanda.

Quem pagou a conta, com sangue, porém, foram os nossos índios. No trabalho “A Amazônia no Período Colonial”, do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), 1987, CEDEAM, os autores dizem que, do ponto de vista do europeu houve “povoamento”, mas sob a ótica dos nativos, houve uma tragédia demográfica. Antes da escalada colonizatória, segundo eles, havia, somente na Amazônia brasileira, aproximadamente 5 milhões de índios, divididos em seis grandes troncos linguísticos (tupi, aruaque, carib, tucano, jê e pano) e senhores de uma fantástica diversidade cultural. Tinham jornada de trabalho, métodos de produção, crenças, músicas, mitologia, rotas de comércio e organização social. Rapidamente foram sendo exterminados ou absorvidos pela sociedade envolvente. Restaram poucos…

Mais adiante, temos uma outra realidade, mas nem por isso, no fim, menos lastimável. Entre os anos de 1879 a 1912 a Amazônia vive o seu apogeu, com o 1º Ciclo da Borracha. A invenção do automóvel impôs que a indústria precisasse do produto, então obtido a partir do látex, originário de nossa região.

Foi a época “de ouro” para Manaus e Belém, que ganharam ares europeus, prédios magníficos, como o Teatro Amazonas e o Teatro da Paz, respectivamente, belas e arborizadas avenidas, bonde e luz elétrica, uma elite de gosto refinado. Manaus e Belém chegaram a ser chamadas de “Paris dos Trópicos” e, Manaus, especialmente, de a “Cidade Sorriso”.

Estava tudo muito bom, tudo indo muito bem, até que o aventureiro inglês Henry Wichkam, bordo do vapor SS Amazonas, de propriedade da companhia britânica Inmam Line, levou 70.000 sementes da hevea brasiliensis, para a Malásia, onde a produção foi organizada de forma racional, com o emprego de técnicas modernas, possibilitando um aumento de produção com a correspondente redução de custos. A “borracha inglesa” passou a chegar a preço bem mais acessível ao mercado, quebrando a nossa economia.

Entre a perplexidade, o desalento e o desespero, os mesmos seringalistas e comerciantes, que, registra a lenda, acendiam charutos com notas de altíssimo valor, agora, diante da bancarrota, apelavam para o suicídio. Para se ter uma ideia do desastre, em 1876 o Brasil dava conta de 95% do látex vendido no planeta. Em 1928, empobrecida, a região amazônica só atendia a 2,3% do consumo mundial.

Ainda houve, de fato, um breve suspiro, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, que resultou no que os livros de história chamam de o 2º Ciclo da Borracha. Aconteceu que o sudeste da Ásia foi invadido pelo Japão e teve de cancelar o comércio com os países do Ocidente, os quais tiveram de voltar seus olhos para a Amazônia brasileira outra vez. Ficou como herança deste momento, o Banco da Borracha, hoje Banco da Amazônia (BASA).

Quando a gente olha para aqueles postais antigos de Manaus e de Belém, e os compara com as imagens de hoje, é, sinceramente, de lamentar. Muita água já passou por debaixo da ponte. Amazonas e Pará foram tocando as suas vidas em frente, com muitas dificuldades. Os outros estados da região, também, com maiores obstáculos ainda. E tudo porque, embriagados pelo “ouro verde”, nossos antepassados esqueceram de pensar e de implementar políticas públicas diversas, capazes de projetar e estabelecer as bases de um futuro melhor para o nosso povo.

A cobiça internacional não cessou, anda a espreita. E agora muito mais sofisticada. Países que utilizaram as suas reservas naturais à vontade, que as dilapidaram, agora querem – e dizem isto expressamente – que a região permaneça como um santuário, intocado; ou como uma reserva para ser usada por eles em caso de necessidade, necessidade esta que já existe, diga-se de passagem.

Júlio Antonio Lopes

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