Exemplo de Itabira, terra de Carlos Drummond de Andrade

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Escrevo de Itabira, localizada na serra mineira, a 111km de Belo Horizonte, a capital. A cidade é pequena, modesta e possui pouco mais de 100 mil habitantes. O clima, na média de 21 •C, e as pessoas, são agradabilíssimas.

A principal atividade econômica de Itabira, que quer dizer “pedra que brilha”, é a mineração. Do alto do “Pico do Amor” é possível ver os seus montes recortados pelas máquinas da Companhia Vale do Rio Doce, que ali explora o ferro desde 1942.

Ela se tornou mundialmente famosa, contudo, em razão de seu filho mais ilustre, que a cantou em prosa e verso: o genial Carlos Drummond de Andrade, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX, autor, dentre outras preciosidades, de Alguma poesia, Brejo das almas, José, Claro enigma, Sentimento do mundo, A rosa do povo, Boitempo, Amar se aprende amando…

Aqui estou em missão cultural, na condição de presidente da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas (ALCEAR), para prestigiar o meu confrade Gaitano Antonaccio, o qual será agraciado, hoje de noite, com o troféu Machado de Assis, que lhe será outorgado pela confraria do lugar, sob a direção do jornalista e intelectual Eustáquio Lúcio Félix.

O que mais me chamou a atenção em Itabira é que, aqui, tudo gira em torno de seu filho querido Carlos Drummond de Andrade. Visitamos, eu e Gaitano Antonaccio, a casa onde o poeta morou, lindamente conservada; a fazenda de seu pai, mantida com igual zelo; o memorial que a cidade lhe dedicou, projeto de Oscar Niemeyer; a central de artesanato, entre o casario da cidade antiga, onde encontramos, que privilégio, Otávia Senhorinha de Andrade Müller, sobrinha-neta de Drumond, com quem conversamos por um bom tempo, inclusive sobre causos pessoais do vate e de sua família.

Ao fim do dia, brindamos com uma deliciosa cerveja artesanal, preparada especialmente para comemorar os 170 anos de Itabira, pequenina, modesta, precisada, é bem verdade, de muita coisa ainda, mas que fica grande, imensa, imortal, porque sabe honrar, como poucas, os seus heróis.

Ao deixar Itabira, olhei mais uma vez extasiado para a imponente estátua de Drummond, de quase três metros de altura, em metal maciço, que recepciona e diz adeus, ou até logo, aos seus visitantes, e pensei comigo: por que Manaus também não é assim? Por que seus prédios históricos estão abandonados ou depredados? Por que os vultos de sua linda trajetória, não encontram aqui igual reconhecimento? Talvez seja porque perdemos a nossa identidade, nosso amor próprio, nosso sentido de pertencimento à terra que nos teve por berço.

E, certamente, porque deixamos, pelo nosso descaso e apatia, pela sabotagem, até, em relação aos conterrâneos que se destacam, terreno fértil para forasteiros e arrivistas de plantão. Isso precisa acabar. Pensemos no exemplo de Itabira.

Júlio Antônio Lopes

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