Artigo: Apelo em favor dos moradores de rua de Manaus

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Políticas públicas atuais não alcançam os moradores de rua de Manaus, que acabam não exercendo a sua cidadania plena.

Por Júlio Antônio Lopes

A Constituição do Brasil proclama, solenemente, que todos são iguais perante a lei, sem quaisquer distinções. Coloca o ser humano, ao contrário de textos anteriores, em posição de preeminência na sua disposição “topográfica”: primeiro temos os direitos e garantias individuais e coletivos; só depois os que tratam da organização do Estado. Tal característica lhe valeu o justo epíteto de “Constituição Cidadã”.


Todos sabemos, porém, que há uma distância abissal entre a intenção e o gesto. Vale dizer, nem sempre o que está escrito, por conta de uma série de contingências, como desvio de verbas, falsas prioridades, desmazelo ou insensibilidade pura e simples de alguns governantes, é possível de implementar. Se fosse, teríamos, certamente, o melhor dos mundos. É diminuto o número daqueles que possuem cidadania plena. A maior parte precisa lutar por ela, seja por meio de ações judiciais ou mobilizações políticas.


Há, contudo, uma parcela da população totalmente excluída dessa proteção: os moradores de rua, em geral sem lenço e sem documentos, quase invisíveis, não fossem as pessoas de bom coração, no cenário das grandes cidades, como a nossa Manaus. Já faz algum tempo escrevi, aqui mesmo neste espaço, um bilhete ao prefeito, pedindo-lhe que olhasse por esse povo. Acho que não fui ouvido. E reforço o meu apelo, ampliando-o ao governador: Pelo amor de Deus, vocês dois, ponham a mão na consciência e resolvam este problema de uma vez por todas! O número desses pobres coitados talvez não chegue a mil… Ainda que passasse, o investimento nem seria tão alto. Desapropriem prédios particulares abandonados ou destinem as dezenas de prédios que estão caindo de podre em nossa cidade e criem espaços de atendimento médico, de moradia, de alimentação, de educação, qualificação, de documentação, de assistência social, enfim, para essa gente.
Não é pedir demais. Saiam de noite, senhor prefeito e senhor governador. Saiam incógnitos, acompanhados de suas respectivas primeiras-damas, e visitem as praças do centro, que vocês verão homens, mulheres e muitas crianças vivendo nas ruas em situação de miserabilidade absoluta, cenário inequívoco de violação dos direitos humanos. Felizmente há dezenas de grupos de voluntários que levam um pouco de carinho e de assistência a eles, mas nunca será o bastante. É preciso que exista política pública específica para a questão. Caso contrário, permanecerá esta ferida aberta no coração da nossa Manaus…


Perdoem-me o desabafo. É que eu e um razoável número de obreiros somos uns sentimentais fora de moda, num mundo tangido pelo consumismo, pelo egoísmo, pelo “nem-estou-aí” com o problema dos outros. Acreditamos que, se possuímos algo, isto é bênção de Deus, razão pela qual deve ser compartilhada, pois a felicidade pessoal não pode estar dissociada da felicidade coletiva. Temos consciência de que ninguém pode ser obrigado a fazer o bem, mas temos certeza de que as autoridades eleitas, que se colocaram voluntariamente nessa condição, a isto não se podem esquivar, a isto estão obrigadas. A nossa esperança é a de que mais corações sejam tocados, inclusive fora das esferas oficiais, e que possamos juntos dedicar parte de nosso tempo para, efetivamente, dar água a quem tem sede e dar de comer a quem tem fome, como já nos ensinava há mais de dois mil anos o nosso amado mestre Jesus.

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