Vereadores de Manaus, à sombra do anonimato

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Fonte: EMTEMPO

Câmara Municipal de Manaus (CMM). Além de sede do parlamento municipal, o espaço, que hoje fica localizado no bairro de Santo Antônio, na Zona Oeste da cidade, é a caixa de ressonância dos interesses da população que reside na capital do amazonas. O espaço, que outrora ficava na Rua Sete de Setembro, no Centro, já vivenciou debates de alto nível e foi casa de expoentes da política local, como Jefferson Peres e Fábio Lucena. Hoje, apesar de ter 41 cadeiras, vive um período de anonimato.

Em junho de 2019, o Portal Em Tempo realizou uma pesquisa com cerca de mil manauaras e questionou quais dos 41 parlamentares da Câmara Municipal de Manaus são conhecidos do povo. A pesquisa constatou que 87% não sabe o nome de, no mínimo, 10 vereadores. Outros 13% afirmaram ter conhecimento de mais de dez nomes. Salvarem-se desse desconhecimento nomes como o de Chico Preto (PMN), Reizo Castelo Branco (PTB) e Sassá da Construção Civil (PT).

Por que anonimato?

Na avaliação do cientista político Carlos Santiago, o anonimato de alguns parlamentares pode ser esclarecido por três aspectos: o grande crescimento populacional nas últimas décadas, o que justificaria o aumento no número de cadeiras na Câmara Municipal de Manaus; pela segmentação de nichos eleitorais, vereadores que representam parcelas; e pela atuação na casa legislativa.

Cientista Político, Carlos Santiago

“O aumento populacional fez com que crescesse a quantidade de representação na CMM, que saiu de 21 e foi para 41 vereadores. Temos uma cidade enorme com um milhão e trezentos mil eleitores que é movida por vários segmentos sociais, grupos econômicos e culturais e isso acaba refletindo na representação política. O Amazonas, por exemplo, há oito anos atrás tinha mais de três milhões de habitantes e, hoje, possui mais de quatro milhões habitantes e isso certamente reflete na própria qualidade dos eleitos”, avaliou o cientista político

Carlos Santiago, Cientista Político

Carlos Santiago também afirma que muitos parlamentares do município não entendem a cidade de Manaus como um todo e representam nichos específicos da sociedade, o que justifica o anonimato perante o restante da população.

“Hoje, por conta dessa segmentação de nichos eleitorais, onde os vereadores buscam votos específicos da sociedade ligados à questão religiosa, questão profissional e de costumes, a representação acaba não tendo um entendimento do todo. É um representante de uma comunidade religiosa, é um líder comunitário…Tudo isso acaba tornando o parlamento a representação de segmentos específicos, o que dificulta na hora de ter um entendimento mais macro da cidade, o que deixa a sociedade com mal-estar por não se sentir representada. O último aspecto que torna esses parlamentares invisíveis com o tempo, é quando eles vão para casa legislativa somente para votar favorável, sem nem usar a Tribuna”, destaca o especialista.

Falha de comunicação

A capital amazonense possui 2.145.444 habitantes, de acordo com a última estimativa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,) em 2018, e mais de 1.320.060 eleitores, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral. Com um expressivo número de votantes, alguns eleitores afirmam que o desconhecimento de maioria dos parlamentares da Câmara se deve à comunicação só acontecer no período eleitoral.

O economista André Frazão acredita que, embora seja muito importante acompanhar os mandatos dos parlamentares, os eleitores ficam em desvantagem ao não ter uma comunicação mais eficiente. No entanto, Frazão também destaca que essa deficiência se deve pelo desinteresse do próprio eleitor em saber mais sobre a cidade.

“Não é feita uma comunicação eficiente durante o mandato, principalmente dos vereadores. Estou por fora do que está sendo proposto e votado. Isso não é uma falha minha, mas é uma falta de comunicação que deveria ser melhorada pela Câmara. Eu acho que o cenário de desconhecimento é mais um reflexo do que a gente é. Se eles estão desinteressados, é muito mais porque a população não se interessa. A frustração do eleitorado com a classe política não se justifica já que não buscamos saber o que eles estão fazendo. Não podemos exigir que a pessoa que a gente nem lembra que votou vá se preocupar com a cidade se nós não nos preocupamos”, afirma o economista. 

Políticos antigos e mais conhecidos

Há 27 anos a configuração do Poder Executivo Municipal era diferente. A cúpula do poder era composta por 21 vereadores. Em 1992, alguns vereadores ganharam notoriedade no cenário político e o reconhecimento da população. Este foi o caso de Jefferson Peres. Até hoje com um enorme legado deixado tanto entre os parlamentares, bem como entre o povo manauara. Ele foi o autor de projetos que extinguiram regalias parlamentares e foi relator do projeto de legalização de escutas telefônicas. 

Outro nome que ficou conhecido na CMM e pelo povo foi o jornalista e escritor, Fábio Lucena, eleito em 1972, sendo o vereador mais votado de Manaus com 8.442 votos. Na época, a Câmara era composta por apenas 11 parlamentares.  O político ganhou notoriedade pela sua postura visionária e por ser encarado como uma pessoa comprometida com a redemocratização do país. Esses foram alguns nomes conhecidos do povo que levaram um protagonismo político até após a sua morte. 

FONTE: emtempo /FABIANE MORAIS

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