A medida do homem

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Júlio Antonio Lopes

Lá pelos idos de 1985, jovem estudante de direito na nossa Velha Jaqueira, fui brindado pela providência divina com um encontro com o grande, brilhante poeta amazonense Ernesto Penafort, já falecido, o qual, em noite inspirada, declamou para mim e para o outro amigo, que lhe era próximo, os seus versos mais queridos. Foi um privilégio.

Tocou-me, bem de perto, a poesia “A medida do azul”, a qual reproduzo a seguir para perpétua memória do fato, para deleite e reflexão dos leitores, dado à sua forma encantadora e ao seu conteúdo místico, assim pareceu-me: “A medida do azul é o estender-se/do olhar por sobre os seres/Esse arguto/perceber que se tem de não mover-se o objeto – / já por ser absoluto./A medida do azul é ver um luto/contido em cada flor e o abster-se/cada qual de assumir seu tom enxuto/ e noutro que o não seu absorver-se./A medida do azul/pelo contrário/não é ver no horizonte o fim do olhar,/mas o ter dessa vida aonde chegar,/pois ali tem o mundo o seu ovário:/e o retorno acontece, sempre estável,/eis que o azul é o início do infindável”. Creio que ali, deu-se em mim o estalo: a vida da gente não é medida pelo que temos, pelas nossas posses, nossa aparência, nosso “sucesso”, assim, entre aspas, neste mundo em que a maioria das pessoas, ainda engatinhando nos caminhos da espiritualidade, pensa que é o máximo, mas pelo que somos e pelo que, efetivamente, podemos fazer de bom para a humanidade. E que a nossa trajetória neste plano é uma etapa, apenas, de um processo maior, que pode fazer a nossa essência, que é a alma, avançar ou involuir.

A este propósito, mestre Benjamin Franklin, um dos pais da Pátria americana e uma das figuras mais benfazejas da história, costumava dizer que a grandeza do homem podia ser medida. “Não pela sua riqueza ou fama, mas pelas suas ações, pelo seu caráter, sua verdade, sua tolerância, sua caridade, sua confiança, sua amizade e o seu amor por seus semelhantes”. Ele avançava asseverando que “a felicidade vem das pequenas melhorias que nós podemos causar no mundo, mesmo por um simples ato de bondade, e que fazer o bem é a melhor maneira que temos de glorificar a Deus”.

É hora de despertar! Abra os olhos e a mente. Faça um retrospecto de sua vida e veja onde está errando. Todos erramos, é bem verdade, mas não somos obrigados a persistir no erro. Se nossos dias são preenchidos por mágoas, por reclamações, por inveja, disputas por dinheiro, por aparências, por infidelidades, enfim, está na hora de parar, de fazer uma revisão geral e de começar a escrever uma nova história.

Não somos obrigados, como dizia Disraeli, a ser pequenos, numa vida que já é curta. Meça-se a si mesmo. Ponha numa balança as suas virtudes e os seus defeitos. Dependendo do resultado, você será mais feliz ou menos feliz. Para medir-se e encontrar o caminho da luz, é preciso ser capaz de fazer, sem restrições, uma visceral autocrítica. E buscar o azul, que é, na fantástica construção do poeta, o início do infindável.

Advogado Júlio Antonio Lopes

julioantoniolopes.adv@hotmail.com

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